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Agora que a banalização do crime ultrapassou as cercanias das periferias e dos guetos para se tornar rotina também nas cidades do interior do Ceará e em todos os bairros de Fortaleza, a questão da segurança pública começa finalmente a ser tratada com o senso da urgência mediante o colapso.Ocorre que os números de guerra civil que agora surpreendem muitos não surgiram de uma hora para outra, mas resultam sobretudo de um processo que acumula uma bagagem de diversos equívocos de gestão, perfeitamente visíveis há pelo menos cinco anos. Como ninguém percebeu antes que caminhávamos rumo ao desastre? A resposta é desconcertante: houve uma omissão generalizada de pessoas e de instituições que deveriam estudar, fiscalizar, denunciar e apontar soluções para os erros que foram se somando. A ineficiência das autoridades responsáveis foi, em boa medida, escondida pelo silêncio cúmplice das universidades, da classe política e da própria imprensa.

Cooptação, camaradagem e medo

Para todas situações que descreverei a seguir, existem as honrosas exceções que as confirmam enquanto regra.

Nas universidades, intelectuais e burocratas foram sutilmente cooptados com a distribuição de cargos, verbas e títulos em órgãos de pesquisa e projetos do governo, tudo feito com precisão cirúrgica: nomes com potencial crítico foram alocados em postos estratégicos. Esses, por motívos óbvios, continuam caladinhos.

Na imprensa, a política de boa convivência entre profissionais da área e as centenas de assessores governamentais gerou uma relação de excessiva camaradagem, prejudicial ao seu papel fiscalizador. Não por acaso, medidas meramente midiáticas como o Ronda do Quarteirão ou os patinetes da Beira Mar, foram devidamente anunciadas como grandes ações de combate à criminalidade, embora os índices de violência crescentes. Ainda hoje, sendo impossível ignogar a tragédia que se impôs aos olhos de todos, choramingos aparecem de forma difusa e mitigada, sem foco. É o lamento pelo lamento. Por algum motivo a obrigação de cobrar explicações do governador Cid Gomes e do secretário Francisco Bezerra não é cumprida de forma insistente e sistemática, como se a violência aumentasse por puro acaso. Reconhecer o problema, de qualquer modo, já é um avanço. A tendência é que, pela pressão popular, a impensa passe a ser mais direta e incisiva.

Na Assembleia Legislativa, deputados estaduais da imensa base governista sempre atuaram para impedir  qualquer debate sério sobre o tema. Em 2010, com o intuito de evitar a instalação da CPI do Castelão, o então deputado e atual prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, emplacou a CPI da Pirataria, enquanto o ex-deputado Edson Silva criou a CPI do Tráfico de Drogas. Exultantes com o sucesso da manobra, os dois nunca se deram ao trabalho de apresentar resultados sobre as supostas investigações que comandaram. Os poucos parlamentares que criticaram a política de segurança passaram a ser vistos como inimigos desleais. Até o momento, basta assistir aos debates na Assembleia para ver que nada mudou.Antes tarde do que nuncaPor isso, caro leitor, ao concordar com especialistas e articulistas que agora criticam com ares de espanto o  problema, aproveite para perguntar: onde diabos estavam eles que não atinaram antes para o óbvio? Isso não invalida o mérito da indignação tardia, mas a qualifica. De todo jeito, vale o ditado:

antes tarde do que nunca. 

Ser o último a saber não muda a essência da verdade, não é mesmo?

Quem acompanha este blog há mais tempo sabe que aqui o tema nunca cedeu a falsas esperanças. Não foram poucos os artigos e posts que escrevi, desde 2007, demonstrando que o espírito midiático que embalou a primeira campanha eleitoral da atual gestão, materializado na criação do programa Ronda do Quarteirão, foi de tal forma incorporado pelas autoridades recém empossadas que acabou por substituir a própria noção de segurança pública no estado. Fechado em copas, desprezando ou cooptando críticos, inviabilizando opositores, agradando jornalistas e com alta popularidade, o governo se iludiu com sua própria propaganda, imaginando ter resolvido a questão da violência a golpes de marketing. Deu no que deu: epidemia de homicídios.

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