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Eu tive uma sorte enorme: completei minha educação básica até metade dos anos 90. Era uma escola pública do interior, com excelente qualidade de ensino até então. Era outro mundo, com outras ideias, com uma visão educacional completamente diferente da que existe hoje. Eu escapei de ser educado no ambiente escolar que começou a ser formado a partir de então em todo o país com a implantação das ideias pedagógicas que destruíram o ensino público brasileiro e que já afetam o ensino universitário.O núcleo do problema está em ver o estudante como um ser incapaz, um selvagem condenado à ignorância, à pena, e, consequentemente, à aprovação automática. As escolas do Brasil estão criando uma série de gerações perdidas graças a esse raciocínio: são jovens que chegarão ao mercado de trabalho e serão rejeitados sem dó. Estamos gestando uma imensa crise de cérebros, de profissionais, de intelectuais, de trabalhadores capacitados que deverá estourar nos próximos anos.

Regressão permanente

Começou com a adoção da chamada “progressão continuada”: em vez de séries de ensino, ciclos de longa duração. Cada estado que adotou o sistema organizou seus ciclos de forma diferente. Em alguns, eles duram dois anos, em outros três ou até quatro. A ideia é que o processo de aprendizado demanda mais tempo para acontecer. Uma consequência direta é o fim da ideia de reprovação, que é substituída pela ideia de recuperação. O aluno agora só corre o risco de não ser aprovado ao final de cada ciclo (ou seja, a cada dois, três ou quatro anos). Daí vem o nome de progressão continuada: o estudante progride no sistema continuamente, sem interrupções.Os defensores desse sistema argumentam que a reprovação desmotiva os estudantes e acaba causando evasão escolar. Eles acreditam que a progressão continuada, auxiliada por um intenso sistema de recuperação, pode manter o aluno na escola e garantir que ele aprenderá tudo o que precisa ao seu próprio tempo, e não no tempo da escola.Conceitualmente, parece realmente algo bom. Cada pessoa é diferente, tem ritmos de aprendizado e interesses próprios, e a forma mais democrática de educar é respeitar essas características individuais. Com sistemas permanentes de recuperação, o déficit que eventualmente for gerado sempre será corrigido e, no fim, todos recebem uma educação de boa qualidade. Mas, já passadas duas décadas da adoção da educação continuada, o que se vê é um cenário desolador.Crianças estão avançando ano após ano na vida escolar semialfabetizadas. Muitas chegam aos últimos anos do ensino fundamental com capacidade extremamente precária de leitura (então imagine de escrita…). Os conhecimentos adquiridos em outras disciplinas são praticamente inexistentes. A situação se mantém ao longo do ensino médio com pouca variação.Isso acontece por muitos motivos: o primeiro deles é que o aluno não se sente motivado a aprender: ele sabe que não será reprovado. Estudar é uma tarefa árdua e muitas vezes chata – que entra em concorrência com a TV, o videogame, o computador, o celular, a rua e, no caso de muitas crianças e jovens, com o trabalho. Por isso, acaba sendo deixada de lado. A perspectiva de reprovação – e de atraso de vida que ela pode acarretar – é, sim, um importante motivador.Por outro lado, o professor também se sente desmotivado. Ele sabe que terá que aprovar o aluno, tenha ele aprendido ou não. O processo de recuperação permanente é desgastante e, sejamos sinceros, não é nada compensador: em vez de elaborar, aplicar e corrigir uma prova, ter que fazer isso várias e várias vezes, comprometendo o tempo que livre. Que professor pode fazê-lo com gosto? Sem falar do fato de que não é possível recuperar o aluno que não deseja ser recuperado. Se não estudou para fazer a prova, sabendo que será aprovado de qualquer jeito, porque o aluno estudaria depois da prova?

Engenharia social

Abordo aqui outra questão, essa muito politicamente incorreta: a organização das turmas por nível de aprendizado. Hoje isso é terminantemente proibido, e as todas as turmas devem ser heterogêneas, com maus e bons alunos. Até os anos 90, as turmas eram divididas conforme o grau de aprendizado, separando os bons alunos dos maus. Alguém achou que isso também traumatiza, e que misturando tudo, seria possível influenciar os maus alunos. O que se viu é o oposto: os maus influenciaram os bons e agora o ensino é mais difícil e lento.Em geral, os criadores de ideias, os “engenheiros” de sociedade, não gostam da realidade. Eles consideram que se uma ideia não funciona, é porque está sendo mal aplicada. Por isso há uma imensa resistência a abandonar o modelo. Alguns dirão: mas a repetência praticamente acabou depois que a progressão continuada foi adotada; ou: as notas das escolas que usam a progressão continuada subiram nas avaliações governamentais. Não nos deixemos enganar: a repetência acabou porque ela deixou de ser aplicada. E as notas subiram? Será que as boas notas de muitas dessas escolas nas avaliações do governo resistiriam a uma auditoria? Qual o grau de manipulação desses exames?Algo assustador é que filosofias semelhantes são aplicadas em várias faculdades, que preferem empurrar seus alunos a fim de garantir a permanência deles ao longo do curso. Você pode se perguntar, mas o que elas ganham com isso? Ora, recebem recursos do governo por meio do FIES e do Prouni. Para muitas dessas faculdades, é preferível garantir o pagamento mensal, mesmo que o aluno seja mal formado, do que perder um estudante e o dinheiro que ele traz.Vejam bem: não estou dizendo que o Prouni ou o FIES sejam ruins, ou que os estudantes que os usam são ruins, nem que as faculdades que os aceitam são ruins. Há muitos bons estudantes que se esforçam, superam as barreiras que as escolas lhes impõem, e, graças a esses programas conseguem fazer o ensino superior. Mas há também outros tantos que optam por faculdades ruins apenas para garantir um diploma. O que estou dizendo é que esse sistema corrompe o processo de aprendizado, o rebaixa, e cria uma situação em que estudantes mal preparados conseguem chegar à universidade, ser admitidos e continuar nelas mal preparados. Os governos, em geral, permitem isso porque estão pensando apenas nas estatísticas: querem quantidade, não qualidade. Houve uma universalização da má educação. De que serve isso?

Fracasso

Qual a grande consequência de todo esse processo? Estamos ensinando gerações de brasileiros a terem baixa auto-estima, a serem preguiçosos e dependentes. Eles são programados desde crianças para acreditar que não são capazes de aprender, que, se fossem avaliados seriamente, seriam reprovados. Com isso, se acostumam, se acovardam, e aceitam que a escola reduza seus horizontes. Eles perdem a capacidade de acreditar em si mesmos e de lutar. Tornam-se preguiçosos: sabem que serão sempre empurrados por alguém. Sabem que não fará diferença fazer ou não fazer a prova ou o trabalho. Assim, tornam-se incapazes de ler textos mais complexos, de produzir raciocínios. Acostumam-se a ser dependentes: sabem que sempre haverá alguém a ampará-los, hoje, um professor, amanhã, o Estado. Não aprender a inovar, a arriscar, a trabalhar, a desafiar, a criar.Outra consequência, essa de gravidade imediata, é o aumento da violência nas escolas. Quantos casos de professores agredidos não têm surgido nos últimos tempos? O aluno sabe que o mundo o olha como se fosse um pobre coitado, e, aqueles que já têm predisposição, se aproveitam disso. Quando um professor incauto ousa desafiar o sistema e cobra do aluno mais do que ele está disposto a produzir, pode acabar sendo agredido. Isso, aliado à visão pedagógica reinante no momento, de que qualquer coisa pode traumatizar o aluno, destruiu completamente qualquer ideia de disciplina que poderia haver em sala de aula. Hoje, em muitas escolas, obedecendo a orientações (na maioria das vezes não escritas) das secretarias de educação e do MEC, não permitem ao professor qualquer tipo de penalidade contra o aluno indisciplinado. Antigamente era possível ser expulso de sala, ser levado para falar com a direção, assinar o livro de ocorrências. Hoje nada disso é permitido, pois pode traumatizar o estudante. Livre de qualquer penalidade, que aluno respeitará o professor?Em meio a esse inferno educacional, há muitos bons alunos que lutam para estudar e vencer na vida. Mas a escola não quer que eles sejam bons alunos: o foco dela está nos maus. A escola nivela o ensino por baixo e puxa os bons para trás. O ambiente de desorganização e indisciplina prejudica o aprendizado. Os bons estudantes que têm a desdita de estar nessas salas de aula são sufocados e deles é exigido um esforço imenso para não cair na mesmice e prosseguir estudando e aprendendo.O mau aluno hoje tende a preferir essa pedagogia do fracasso, pois ela é mais cômoda. A maioria dos bons professores a detestam. Há professores que a apoiam, ou porque acreditam na visão ideológica que a embasa, ou porque se acomodaram. Mas daqui a alguns anos será possível ver com mais clareza os resultados. Milhões de jovens chegarão ao mercado de trabalho quase sem instrução. Estarão mal preparados e quebrarão a cara, pois o mercado não vai passar a mão em suas cabeças. Haverá uma nova elitização: quem estudou em escolas particulares, que em sua maioria adotam os velhos modelos pedagógicos, chegará ao mercado bem preparado, bem instruído, bem educado, e conseguirá seu emprego. E o que será de quem teve que estudar nas escolas da pedagogia do fracasso, que passou a vida acreditando que não precisa e nem é capaz de se esforçar? Nossa sociedade terá para com eles uma dívida impagável. Por esses, rezemos. Rezemos também para que alguém um dia tenha coragem de perceber os imensos erros cometidos e voltar atrás.

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