Ensimesmada, a nossa política cria as suas próprias pautas e relega os temas que mais interessam ao cidadão. Qual é a principal pauta no meio político do Ceará hoje? Provavelmente, os projetos de poder. E qual deveria ser a grande pauta de nossa política hoje? Óbvio: a violência que inferniza a vida dos cidadãos.
O Ceará ainda é muito pobre. Na economia, apenas nos arrastamos. Temos mais de 4% da população nacional, porém somente 2% do Produto Interno Bruto do País está aqui. Significa que o Estado continua com papel social e econômico preponderante. Então, naturalmente, é do Estado que emana boa parte das pautas. E é evidente que esse debate da violência não interessa a quem está no comando.O fato é que a (in)segurança pública já se transformou em um imenso problema para o Palácio da Abolição. Cid Gomes se elegeu com a bandeira da segurança, mas os índices pioraram numa proporção escandalosa. Até aqui, apenas uma palavra do governador. Foi em 26 de março passado. Vejam a seguir o que foi dito.“O maior desafio hoje é reduzir o número de homicídios no Ceará… O primeiro passo é assumir que isso é uma realidade. O segundo é envolver toda a sociedade. O nosso desafio é reduzir esses números no Ceará. Eu quero deixar registrado publicamente, que esse desafio é um compromisso pessoal que assumo com o povo cearense”.Desde então, vale a pergunta: foi estabelecida uma nova política de segurança capaz de oferecer os resultados que todos esperam e capaz de, como disse o governador, envolver a sociedade? Absolutamente, não. Que medidas de impacto foram tomadas para mudar o rumo das coisas? Não se sabe.Mas parece haver um fato novo. Nos bastidores, comenta-se que o ex-governador Ciro Gomes é quem está no comando de fato (não de direito) da segurança pública no Ceará. Talvez seja um exagero. Talvez não. O mundo do “talvez” não nos oferece nenhum conforto. Pelo contrário.Sabe-se, também extraoficialmente, que Ciro Gomes chegou a acompanhar uma batida policial no Bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Outro ação perceptível foi a colocação de duplas de policiais em algumas esquinas dos bairros mais ricos da cidade (o assaltante apenas evitará tais esquinas).É o que, até aqui, se sabe. Caso algo mais esteja em andamento, não se sabe. Muito melhor seria acabar com essa indefinição e Ciro assumisse logo a pasta da Segurança.
MÃO VERMELHA CARIMBADA
Enquanto perdura o silêncio oficial, há muito barulho nas redes sociais. Na era das câmeras de fotografar e filmar em celulares e tablets, multiplicam-se as imagens de cenas de violência. Junto delas, os protestos indignados. A fase da indignação começa a ser superada e se transforma em protesto organizado. Depois do “Fortaleza sem Medo” surge o “Fortaleza Apavorada” (atentem para a oposição entre os sentidos das denominações). Entre os organizadores do movimento, está a arquiteta Eliane Braga. No Facebook, até a noite de sexta-feira, já havia mais de 3.550 pessoas compondo o grupo, que é fechado (os membros precisam ser aceito pelos organizadores).Diferente do “Fortaleza sem Medo”, que é mais técnico, o “Fortaleza Apavorada”, cuja maioria dos membros é do sexo feminino, faz a opção por ações mais diretas e impactantes nas ruas. A primeira ação pública de visibilidade nas ruas será (a partir desse fim de semana) uma mão pintada de vermelho carimbada no vidro traseiro dos automóveis.
UM OBJETIVO COMUM
Vale a pena a leitura de um comentário do jornalista Ricardo Noblat acerca do que ocorreu em Brasília nos tempos em que o trânsito de lá era caótico e assassino. Agora, com muito mais carros nas ruas, continua caótico, mas mata muito menos. Atentem: o que serve para o trânsito serve também para a violência urbana.  “Foi na metade dos anos 90 que os brasilienses começaram a vencer a batalha contra a violência no trânsito. A batalha foi deflagrada com a morte de um pedestre no Lago Norte atropelado por um carro dirigido por um dos filhos de Odacir Klein, na época ministro dos Transportes do governo Fernando Henrique Cardoso. O ministro estava dentro do carro.O atropelamento ocupou largo espaço na mídia até que começou a se esgotar. Mas um jornal de Brasília, o Correio Braziliense, cujo primeiro número circulou no dia da fundação da cidade, resolveu usar o episódio como gatilho para uma campanha contra a violência no trânsito. Qualquer acidente, pequeno ou grande, passou a ganhar destaque obrigatório na capa do jornal.Atendendo uma convocação do Correio, cerca de 30 mil pessoas vestidas de branco saíram em passeata pedindo paz no trânsito. Aderiram ao movimento entidades de classe, centrais sindicais, igrejas, clubes de serviço, a Câmara Legislativa e o governo do Distrito Federal – à frente o governador Cristovam Buarque, do PT.Sem um veículo de comunicação empenhado em martelar o assunto diariamente a campanha teria fracassado. Sem um governo decidido a transformar em leis as medidas capazes de inibir a violência a campanha teria fracassado.Sem uma população assustada, mas disposta a acreditar na contenção da violência a campanha não teria sido um êxito, como foi. Esses elementos existem em todos os lugares – meios de comunicação, governos e Assembleias Legislativas, e o público em geral. Só não se juntam com um mesmo objetivo se não quiserem”

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