O medo elegerá o próximo governador da Cidade. Infelizmente. Será o álibi do palavrório messiânico de quem, por projeto particular de poder, tentará tornar o que está ruim ainda mais desgraçado. E é fato que, por real ou irreal, as ruas perderam a leveza, a alma do flanar, do eguar, do sair por aí. Os encontros passaram a ser recheados por narrativas do amedronto. E os corpos entraram na dramaturgia do susto, do sobressalto. Ora olhamos para os lados, ora aceleramos na esquina, ora revelamos estratégias de como escapar.E a graça, (do gracioso, do risível, do ridículo), temos abandonado, estamos nos ausentando, nos enfurnando numa tristeza clandestina. Prometendo ir embora para lugares menos piores. Não toco nos pífanos dessa banda. O risco se arrasta aí: o desencanto pela Cidade e a impotência no reagir. Doce na boca de quem fará do pavor o discurso para governar o castelo a partir da Aldeota-Cocó-Meireles. Já foi assim, num cenário menos azedo e que supurou.O Ronda do Quarteirão, polícia do marketing e vazia de fundamentos, foi escada para eleição dos Ferreira Gomes. E olhos embaçados, morrendo de medo, os acuados votaram pela promessa enganosa de que a Cidade voltaria a ser segura. De que as calçadas poderiam ser experimentadas a qualquer hora do dia por causa da presença dos guardas da boa vizinhança e um cafezinho.Puro blefe e tão óbvio. Polícia, secretaria da Segurança, é apenas ponta. O cachorro pastor alemão que soltamos à noite para que os larápios não escalem os caibros nem forcem os basculantes. Antes deles, da cavalaria salvadora em cada esquina, o ajuste consequente das relações na Cidade seria a primazia.Governo coletivo, governador sem projeto particular de reinado, é aquele que traça possibilidades para se multipliquem riquezas sustentáveis e afetos na Cidade de todos. Principalmente para os que precisam ser incluídos onde rebentaram. Que precisam existir.Se polícia, se secretaria da Segurança, fosse o fundamento para consolidação da paz pública o que explicaria a existência de comunidades dominadas por traficantes de drogas e armas? Aos 46 anos idade, testemunhei a indicação de pelo menos dez secretários da Segurança. Nenhum deles sabe explicar por qual motivo, por exemplo, a chave da comunidade do Pôr do Sol é dos bandidos e não do prefeito, governador e, efetivamente, do povo de bem que mora lá.Já passou da hora do governador fazer de conta que encara a paz pública como prioridade. Ele deixará o trono, provavelmente não fará sucessor, e não terá como responder por quais razões não pacificou o Pôr do Sol e outros lugares onde o medo faz as pessoas desejarem não existir.Parece arrogante o que vou perguntar: tirante as aberrações da experiência das Unidades Pacificadoras do Rio de Janeiro, não estaria passando da hora de tentar modelo semelhante aqui? De chegar no Pôr do Sol (e outros lugares impenetráveis), depois de um trabalho de inteligência policial e pacto com o judiciário, e levar a julgamento traficantes de drogas e armas? Decretar o fim da conivência do Estado?De abrir caminho para que a Prefeitura e as secretarias do governo entrem consequente onde o poder público é menos? Falta o quê, governador? Faltou o quê para o ex-secretário da Segurança e as polícias que ele achava que comandava?Daqui a pouco, a campanha para eleição de governador e parlamentares estará mais forte na rua. E os boatos de arrastões nas avenidas, as imagens de flagrantes de assaltos na Aldeota-Cocó-Meireles, o corpo mole das polícias, os latrocínios, o assassinato de meninos na periferia e os roubos encarrilhados a bancos estarão mais apavorantes.Medo de existir na Cidade dos nossos afetos não traz potência criativa nem transforma coisa alguma. Só favorece quem já ganha com o pavor e está investindo mais ainda para continuar no poder ou doido para estrear.